sexta-feira, 8 de julho de 2016

Mon Oncle de Jacques Tati




 “As cores imprimem no nosso ser sentimentos e impressões, agem sobre nossa alma, sobre nosso estado de espírito; podem servir, portanto, para o desenvolvimento da ação, participando diretamente na criação da atmosfera, do clima psicológico e dramático[…]” BETTON (1987, p. 60-61)
Uma matilha de cachorros de rua é quem acompanha os personagens numa espécie de olhar subversivo. O filme começa com uma construção. Visualmente, os primeiros letreiros estão praticamente inclusos no universo do filme, tanto os primeiros, cinzas, ao lado da construção, quanto o próprio ”letreiro” principal do filme, que é escrito em giz na parede de pedras. Cachorros mexendo no lixo na rua - os prédios pintados de cinza. Tudo ao redor é cinza. As superfícies planas; paredes, portas e mesas lisas e cinzas. Tati acompanha os cachorros até a casa: apenas um dos cachorros entra, os outros ficam apenas olhando de fora: esse é um espaço privado para poucos.
Já a casa de Hulot, é um organismo mais humilde, apesar de tambem cinza, é repleto de adereços, objetos e animais que dão uma certa pulsão dentro da casa. É interessante perceber como os comôdos são interligados, onde Hulot passeia com facilidade por todos os comodos em um plano emblemático, quebrando a ideia de separaçao, individualismo, e segregação que a casa moderna passa.

Uma das questões mais importantes do filme são levantadas através de dois objetos. A relação que se dá entre a campainha e o peixe, diz respeito a uma crítica e uma sátira enorme. Quando alguém toca a campainha, a mulher corre quase automaticamente para ligar o peixe-fonte, que é ligada de acordo com a importância de quem chega, ou seja, o peixe só começa a jorrar água quando há alguém para olhá-lo, alguém que mereça essa certa ostentação, onde por isso, aquela seria uma casa, supostamente, mais luxuosa (para os outros). Quando a visita deixa a casa, a dona da casa, de modo naturalizado, desliga a fonte. Quando recebe visitas, a própria casa se altera, e é modificada visualmente, como um organismo-mecânico, cujo a finalidade é, obviamente, além de abrigar a família, algo mais, que passa por questões de uma necessidade de ostentar uma imagem de luxo. Praticamente todas as paredes no universo do filme são cinzas. O que Tati faz com esses personagens pequeno-burgueses chega a ser sutilmente incômodo. É mostrar pra nós, algo que nem eles mesmos sabem.

O próprio Hulot, como personagem, pensando a partir do figurino, está sempre portando um guarda chuva, um característico cachimbo, uma jaqueta enorme e um chapéu: por um lado, pela parte do vestuário, ele sustenta uma postura de figura séria, madura. Postura essa que é desconstruída com seu modo em lidar com as pessoas e com o mundo. De um modo quase infantil; talvez até por isso Hulot seja mostrado quase como um contra-corrente, um à parte.

"Tati estabelece em Meu Tio uma crítica ao culto à modernidade tecnológica já vigente na década de 50. O título faz referência ao único membro da família que não se encaixa nessa mentalidade corrente na família Arpel: o simpático tio Hulot, interpretado pelo próprio Tati. Hulot, solteirão e desempregado, passa a ser admirado por seu sobrinho Gérard justamente por estar fora dos padrões impostos pela sociedade. E isso provoca, no decorrer da trama, uma crise de ciúmes em Charles, pai de Gérard." Sabine Righetti

Uma das brincadeiras mais emblemáticas que Tati faz no filme é o uso do caminho de pedras no chão e o modo com que as pessoas caminham sobre ele. Num primeiro momento, duas madames vão de braços abertos, enquanto caminham de maneira quase robótica sobre o passeio.
As duas casas acabam por se tornar as peças mais importantes do filme de Tati.






Apesar de um aparente desprezo pela família pequeno-burguesa, contida em todas essas críticas, por outro lado, em outros detalhes, Tati demonstra ter feito uma obra com alto grau de opacidade, tendo em vista que, se por um lado, ele automatiza os personagens, em outros momentos eles são retratados de maneira mais humana, como na cena quando o pai chega em casa do trabalho a noite, ele tem de gritar para a esposa após tocar a campainha “sou eu, não precisa ligar!“ – então, no fim das contas, Tati demonstra ter um apego pela contradição, demonstrando cenários e personagens multifacetados que se por um lado tendem a ostentar uma postura de organização, também trazem idéias de solidão e da importância que o sujeito que dá para o outro. Se por um lado adotam um ar de grandeza, por outro lado assumem seu lado patético. Talvez a provocação principal do filme seja afirmar que as pessoas vivam, assumidamente ou não, preocupadas com o outro. Ou talvez então seja a denúncia de que estejamos nos automatizando, perdendo nossa autenticidade, e com isso, nosso lado humano. No final, para Tati, o indivíduo é tão frio e automático quanto a máquina, assim como a máquina é tão patética e sem importância quanto o indivíduo. Mas ambos são organizados e regidos por forças que eles mesmos não compreendem.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O menino que queria encontrar o fim do mundo



Filme completo legendado em português

A proposta deste ensaio é analisar e refletir sobre a primeira parte do longa-metragem “Desejo“, realizado em 1958, do diretor tcheco Vojtech Jasny. Esse longa é composto por quatro partes interdependentes entre si, onde não há continuação temporal ou narrativa. Não se tratam dos mesmos personagens, mas de diferentes corpos lidando com diferentes condições humanas. Há uma abordagem acerca de certos temas que fazem uma ligação entre essas quarto partes. Todavia, de qualquer modo, vou me ater a pensar apenas nessa primeira parte, “O menino que queria encontrar o fim do mundo“, desconectada do restante do filme.

"Desejo"
”Quatro estações, quatro períodos da vida humana”

Acredito que após apresentar as reflexões e observações, tentando dialogar com a teoria psicanalítica, ficará mais transparente a minha intenção de buscar um conceito que acredito estar presente no filme, e que parece ser o ponto de partida para  toda uma construção de personagens e da narrativa. Essas observações me levam a crer que o diretor Jasny nos deixou pistas para entendermos que ele relaciona a idéia da estação primavera como uma certa metáfora para o início da vida e um período específico da infância que ele ligou mais acentuadamente: a fase fálica e a estrutura edipiana.
O filme abre com alguns garotos correndo em um campo aberto junto com vários pássaros. O desejo dos garotos frente a uma imagem, uma paisagem que gera uma empolgação neles. Freud (1929 p 21) no livro “A Interpretação dos Sonhos“ chega a fazer uma reflexão sobre a idéia do órgão feminino ser representado por uma paisagem. Como no trecho de um sonho de uma paciente “Em frente à igreja uma trilha levava até a colina; de ambos os lados cresciam relva e moitas cerradas, que se iam tornando cada vez mais espessas e, no alto da colina, transformavam-se num bosque comum.
Os garotos correm atrás da imagem que ilusoriamente os faz criar uma realidade, “estariam chegando no fim do mundo“.

Esses garotos, supostamente entorno dos quatro ou cinco anos, estariam passando pela fase fálica. A descoberta da sexualidade. Neste momento a criança questiona sobre o mundo e sobre a diferença sexual. Essa fase é parte do processo que desencadeia no complexo de édipo e na castração. Logo, se o garoto se encontra em uma fase de sua vida em que ele está assimilando a cultura está passando pelo processo de instauração do Superego. Anteriormente a isso, a criança é movida apenas pelas suas pulsões, ainda não conseguindo assimilar normas e sem a noção de culpa.

“Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma `compulsão à repetição`, procedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco, e ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianças pequenas;“ (FREUD, 1925, p. 297)


Investigação sexual infantil – a pulsão do saber. A busca pelo saber: a questão “onde posso encontrar o fim do mundo?” é encaminhada a um velho (quem se pressupõem  que tenha o saber) e a resposta: em lugar nenhum. “Volte para casa você é um bom menino“. Na vida adulta o indivíduo descobre que o fim do mundo é a morte.


"Ao mesmo tempo em que a vida sexual da criança chega a sua primeira florescência, entre três e cinco anos, também se inicia nela a atividade que se inscreve na pulsão do saber ou de investigar. Essa pulsão não pode ser computada entre os componentes pulsionais elementares, nem exclusivamente subordinada à sexualidade. Sua atividade corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação e, de outro, trabalha com a energia escopofílica. Suas relações com a vida sexual entretanto, são particularmente significativas, já que constatamos pela psicanálise que, na criança, a pulsão de saber é atraída, de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa, pelos problemas sexuais, e talvez seja até despertada por eles." (FREUD, 1925, p.118 )

Na vida real, ao ser questionado, o pai do garoto encontra uma resposta para sua pergunta: de onde vem os bebês? Eles nascem de um ovo, como os animais – a idéia da sexualidade fica de fora.

"A investigaçãoo sexual desses primeiros anos na infância é sempre feita na solidão; significa um primeiro passo para a orientação autônoma no mundo e estabelece um intenso alheamento da criança frente às pessoas de seu meio que antes gozavam de sua total confiança." (FREUD, 1925, p. 120)

É interessante perceber que a figura do pássaro está presente em quase todo o filme. É possível fazer uma relação entre a imagem do pássaro, com a idéia do pênis no imaginário infantil. E é exatamente essa poética com o pássaro que cola encima da idéia de que o garoto está passando pela fase fálica. Afinal se é esse justamente o momento da descoberta da sexualidade, com ela vem aí também a questão da diferenciação entre aquele que “tem“ (e o medo de perder), e aquele que “não tem“ (uma suposta falta por isso) – a idéia da potência relacionada ao falo e a divisão entre os campos do feminino e masculino, ambos relacionados a “funções“ e lugares diferentes: há uma cena onde o garoto protagonista, com as pulsões à flor da pele, tenta tomar as flores de uma garotinha, lembrando aquela idéia que Freud falou da forma sublimada de dominação, enquanto que “fragilmente“ a menina tem de ser defendida por outro garoto.
O sonho mostra o simbólico. Alguns elementos da vida cotidiana estão ali representados com uma certa distorção da realidade. Como diz Freud (1925, p.26) em  “A Interpretação dos Sonhos” acerca do conteúdo presente no inconsciente é extremamente notável, por certo, que o simbolismo já desempenhe seu papel no sonho de uma criança de quatro anos. Mas isso é a regra, e não a exceção. Pode-se afirmar com segurança que os sonhadores dispõem do simbolismo desde o princípio. E esse conteúdo teria uma relação com aquilo que cerca o garoto no seu dia-dia: “no tocante às conexões com o dia anterior, que surgiram com certa insistência no conteúdo onírico e foram reproduzidas pelo sonhador sem qualquer dificuldade“ (idem, p.23). Imagens que fazem parte de seu universo estão preenchendo seu sonho, porém de maneira distorcida. O modo como o pai acompanha o filho é infantilizado. À grosso modo, alguns poucos elementos constroem o imaginário do garoto: os enormes lençóis brancos pendurados nos varais, o buquê de flores e os pássaros. Esse momento que constitui algo próximo de um ritual de passagem. Sob aspecto do figurino, por exemplo, o garoto e o pai vestem a mesma roupa. O garoto toma o pai como ideal de identificação, irá imitá-lo, querer ser como ele.
 O diretor fez uso de poucos elementos materiais para construir o sonho do garoto. O modo como Jasny usa o lençol é uma espécie de “entrada“ para um lugar ritualístico. Há um momento em que o garoto, na empolgação, quase atravessa a “porta“ para esse outro lado, mas o pai o puxa pela perna e o traz para trás do lençol. O pai então pega um buquê de flores e, como em uma espécie de “gesto mágico“ toca o buquê ,  como se fosse uma mistura de varinha mágica com a idéia de tocar uma campainha em alguma porta – magicamente os lençóis se abrem. Surge então a figura daquele senhor, do qual se supõem que há algo de sábio, acompanhado de outros dois garotos, todos trajando uma espécie de toga: o velho tem uma bengala na mão, o garoto da esquerda tem um ovo gigante e o da direita um pássaro pousado em seu dedo.
Outra das cenas mais tocantes do filme é o desfecho da estória, quando o garoto vai finalmente conhecer sua irmãzinha. O garoto acorda de seu sono e vai correndo empolgado buscar o que?  Exatamente aquele buquê de flores, aquele objeto que ocupou um lugar de importância no imaginário do garoto, porém agora, ao contrário do sonho, ao encontrar o pai prestes ao momento da “cerimônia“ a coisa acontece de modo muito diferente. O garoto aparece todo sujo de terra e com o buquê de flores escondido nas costas. O pai nem toma conhecimento do buquê de flores e dá um tapa no rosto do garoto para reprimi-lo por estar sujo de terra.  Aparece aí também talvez a idéia da culpa, pois o garoto então chora, e no mesmo gesto, revela ao pai as flores, como quem pede desculpa por um erro que cometeu. A figura do pai representa culturalmente a figura da punição, e uma punição que visa corrigir o indivíduo; uma forma agressiva de aprendizado. O pai provavelmente aprendeu assim com quem o  criou e foi assim que ele aprendeu a ser um homem, e agora, ele quer ensinar o seu menino a ser homem, à uma maneira que provavelmente foi a única que ele conheceu.
 Há uma ligação com a idéia da formação do superego com a norma e a punição. É mais uma ligação que reforça o conceito da idéia do garoto que está na fase fálica. Na estrutura edipiana a criança toma um dos pais como objeto de desejo e o outro como objeto de identificação. O garoto está dividido, e enquanto o pai, é ao mesmo tempo uma contradição para ele, uma espécie de amigão (ideal de identificação) e uma espécie de punidor; por outro lado, a mãe lhe fornece outra posição que não coincide com a agressividade masculina, ela diz: “você é meu doce menino”. Fica no ar a idéia de que, ainda que de modo opaco, estaríamos diante de uma estrutura edipiana.
A partir de tudo que foi discutido, acredito que seja perceptível a intenção de querer analisar essa obra relacionando seu conceito com o olhar da psicanálise. Cabem muito mais interpretações e contribuições no que diz respeito a análise desse filme, até pelo fato de eu ter me reservado a pensar somente na primeira das quatro estações abordadas no filme.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
Obras completas Freud [versão brasileira edição de 1925] – Volumes V(A Interpretação dos Sonhos); VII (Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade [O estranho]), XVII (História de Uma Neurose Infantil e Outros Trabalhos)

sábado, 21 de maio de 2016

Tudo foi feito pelo Sol

                                                                (Ouça o disco na íntegra)

                                            


1. Deixe Entrar Um Pouco D'água no Quintal
(Sergio Dias / Liminha / Ruy Motta)

2. Pitágoras

(Túlio Mourão)
3. Desanuviar
(Sergio Dias / Liminha)
4. Eu Só Penso Em Te Ajudar
(Sergio Dias / Liminha)
5. Cidadão Terra
(Sergio Dias / Liminha)
6. O Contrário de Nada É Nada
(Sergio Dias / Túlio Mourão)
7. Tudo Foi Feito Pelo Sol
(Sergio Dias)



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Sem Rita e Arnaldo, Os Mutantes deram continuidade a sua fase progressiva, já assumida no disco anterior "OAEOZ" de 1973 (que só foi lançado vinte anos após a gravação). Após conversas entre os integrantes, resolveram chamar a banda agora apenas de Mutantes.

"Tudo Foi Feito Pelo Sol" (1974) foi o sexto álbum da icônica banda brasileira. Contando apenas com o guitarrista Sérgio Dias da formação original, o disco traz um conceito a cerca das teorias filosóficas do Uno, mesclada com referências da contracultura - uma obra prima da lisergia tupiniquim influenciada pelo rock progressivo inglês dos anos 70.

Mesmo sem a presença dos membros originais Arnaldo Baptista e Rita Lee, o álbum foi o mais vendido da carreira dos Mutantes, segundo Sérgio Dias.




Sérgio Dias: guitarras, vocais e cítara.
Túlio Mourão: piano, órgão, MiniMoog e vocais.

Antônio Pedro de Medeiros: baixo e backing vocals.

Rui Motta: bateria, percussão e backing vocals.





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A TEORIA DO UNO E O DEUS SOL


Em várias sociedades humanas, egípcios, gregos ou maias, por exemplo, o homem volta e meia cultivou a idéia de que o Sol seria o grande Deus, ou um Deus entre outros. 

Giordano Bruno em, "De l’infinito universo e mondi" e "De la causa, principio e uno" (ambos livros de 1584), defendeu teorias filosóficas que misturam um Neo-Platonismo místico e panteísmo.

Acreditava que o Universo é infinito, que Deus é a alma universal do mundo e que todas as coisas materiais são manifestações deste princípio infinitoPara Bruno, o homem jamais poderá conhecer Deus, posto que  ele está além da capacidade do pensamento humano. Poderá, quando muito, conhecê-lo por seus vestígios, os quais se mostram no universo, razão pela qual mesmo esse conhecimento é precário, vez que o homem quase nada conhece do universo.

Para Plotino, por exmeplo, a idéia do Uno, é um modo de enxergar o Universo. Tudo é Uno, pois, tudo faz parte de uma única coisa. Há algo do campo metafísico e químico que une toda a existência, seja ela viva ou não. E aquilo que emana vida, e é a origem de toda vida que possa haver no Universo, é a luz que sai de um astro luminoso e se espalha para tudo à sua volta; as estrelas; o Sol. 


Essa relfexão filosófica nos desprenderia a respeito de questões mundanas, transcendendo a nossa própria noção de Ser, de substância e de morte - fazemos parte de algo que vai além de todas as coisas que conhecemos, é infinito e imaterial. É o Uno que gera e conserva todas as coisas ilimitadamente. Nós não conseguimos entender, chegar até a essência do Uno, manifestar ou representar essa idéia, que o cristianismo e tantas outras religiões apropriara como "Deus". 


A idéia de chamar o Sol de Deus é uma subversão, pois o Sol em si é apenas mais uma estrela que faz com que os seres vivos existam. Não há uma lógica em relacionar a palavra "Deus" à uma figura que tem um propósito, que pensa, que julga - a idéia de Deus aqui, é simplesmente aquele que torna possível a vida - uma concentração de energia que emana, seja de maneira química ou metafísica, a luz que possibilita a vida no planeta Terra. O Sol não é Deus, todavia, em nosso planeta, tudo foi feito pelo Sol.

Mas os próprios Sóis possíveis no Universo têm um certo tempo de "existência"; em algum momento, a estrela "morre". É aí que entra a questão do Uno no universo. Mesmo que uma estrela se apague, e com isso, seus sistemas solares percam vida, ainda haverá vida no Universo, pois existem outras estrelas, que emanam luz e possibilitam a vida. E, segundo essa teoria, haveria uma conexão metafísica inevitável entre todas as estrelas e os seres vivos do Universo. 

A própria teoria budista mistura a noção de Deus com a Natureza e introduz o princípio do "caminho do meio" onde é quebrada essa idéia de um Deus julgador, com um propósito, mas que a própria Natureza dos atos seria uma espécie de "julgamento" ou "direcionamento". Essa idéia de Deus então, não existe como uma figura separada, mas estaria presente e emanada em toda forma de vida na Natureza; e essa Natureza na sua essência, não existiria sem o Sol.





INFLUÊNCIAS MUSICAIS

"Antes da gravação do disco ouvimos o "Close to the Edge" na íntegra" DIAS, Sérgio
O disco é uma ode ao Rock Progressivo. Claramente, Sérgio, Túlio, Antônio e Rui, haviam mergulhado de cabeça no universo do Prog.

Yes, Emerson, Lake e Palmer, King Crimson, Pink Floyd são exemplos de bandas britânicas que mais fizeram a cabeça dos músicos brasileiros na época da composição das músicas e que levavam um Progressivo Sinfônico que dialoga com o Space Rock.

Uma curiosidade interessante, é que o disco foi gravado em apenas um único dia. E os músicos haviam se deliciado com o clássico "Close to the Edge" momentos antes de entrarem no estúdio - o dedo do Yes é o mais visível na influência das composições.

A fórmula propõe uma mistura de momentos eufóricos, onde há um certo "caos organizado" sempre banhado de solos de guitarra ou moog acompanhados de um certo groove levado pelo casamento do baixo e da bateria. Esses momentos mais pesados, lisérgicos volta e meia são quebrados nos imergindo em momentos de relaxamento, tanto nos momentos da "cama" quanto nos momentos influenciados pela onda "zen", mais hippie.


                                                      


quinta-feira, 19 de maio de 2016

"A Desobediência Civil" de Thoreau

O gênesis do Anarquismo. De 1849 para a eternidade. (Por Henry David Thoreau)

                          
"[…] Porém, para falar de modo prático e como um cidadão, ao contrário daqueles que chamam a si mesmos de antigovernistas, eu clamo não já por governo nenhum, mas imediatamente por um govrerno melhor. Deixemos que cada homem faça saber que tipo de governo mereceria seu respeito e este já seria um passo na direção de obtê-lo "
"De que modo convém a um homem comportar-se em relação ao atual governo? Respondo que ele não poderá associar-se a tal governo sem desonra. Não posso, por um instante sequer, reconhecer como meu governo uma organização política que é também governo de escravos."
"Toda votação é um tipo de jogo (…) onde se brinca com o certo e o errado sobre questões morais; o comprimisso de votar, desta forma, nunca vai mais longe que as conveniências. Nem mesmo o ato de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é certo - é apenas uma forma de expressar publicamente o meu anêmico desejo de que o certo venha a prevalecer - uma pessoa sábia não deixará o que é certo nas mãos incertas do acaso e nem esperará que a sua vitória se dê através da força da maioria. Há escassa virtude nas ações de massa dos homens."
"Existem leis injutas; devemos submeter-nos a elas e cumpri-las, ou devemos tentar emendá-las e obedecer elas até à sua reforma, ou devemos transgredi-las imediatamente? (…) Em uma sociedade como a nossa, as pessoas em geral pensam que devem esperar até que tenham convencido a maioria a alterar essas leis. (…) Mas é precisamente o governo o culpado pela circunstância. É o governo que faz tudo ficar pior. Por que o governo não é mais capaz e se antecipa para lutar pela reforma? Por que ele não sabe valorizar a sua sábia minoria? Por que ele não estimula a participação ativa dos cidadãos para que lhe mostrem as suas falhas e para conseguir um desempenho melhor do que eles lhe exigem? "
"O governo em si, que é apenas a maneira escolhida pelo povo para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele."
"[…] todos devem reconhecer o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis em sua tirania e ineficiência." ainda sobre "[…] se a injustiça é parte do inevitável atrito no funcionamento da máquina governamental (…) se ela exigir que você seja o agente de uma injustiça para outros, digo, então, que se transgrida essa lei." (…) Faça de sua vida um contra-atrito que pare a máquina - o que preciso fazer é cuidar para que de modo algum eu participe das misérias que eu condeno"
"[…] o homem rico - e não pretendo aqui estabelecer uma relação invejosa - é sempre um ser vendido à instituição que o enriquece. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude (isso não vale para o contrário). Pois o dinheiro interpõe-se entre um homem e os seus objetivos e permite que ele os compre - obter algo dessa forma não é grande virtude."
Sobre o exército Thoreau provoca: 
"(…) Então, o que são eles? Homens ou pequenos fortes paióis a servico de algum homem inescrupuloso no poder?". Ainda sobre: "o exército é apenas um braço armado do governo. Estamos todos, desta forma, de conformidade com a ordem e o governo civil, reunidos para homenagear e dar apoio à nossa própria crueldade.". "A grande maioria dos homens serve aos Estados desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos.".


segunda-feira, 16 de maio de 2016

A rebelião das massas (1926)

A obra de José Ortega Y Gasset contrapõe-se ao individualismo. Ortega, de modo provocativo, procura induzir à reflexão crítica acerca. é um homem de constatações. E as defende com argumentos sólidos. Porém, em poucos momentos foi totalmente conclusivo. Ortega deixou abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao futuro.



Ortega faz uma confissão sobre a influência da filosofia de Kant em sua vida e obra: "Durante uma década vivi no mundo do pensamento Kantiano: eu o respirei com uma atmosfera que foi, ao mesmo tempo minha casa e minha prisão (…) Com grande esforço, consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica"
Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna".
Sobre o poder social e efeitos da violência: "ela mesma (violência) nos parece um sintoma de saída, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizava em Hércules".

Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando - se para os psicanalistas e filósofos contemporâneos, o século XXI é o século da feminilização - estariam então, os homens se feminilizando?


Sobre seu pensamento, tinha plena noção de que tudo que se escreve é datado, porém datado não quer dizer obsoleto, pelo contrário: "o assunto em que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. Há sobretudo épocas em que a realidade humana, sempre instável, se precipita em velocidade vertiginosa. Nossa época é dessa classe porque é de decidas e quedas. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado."
Ortega tenta a todo custo sair de lugares comuns e ironiza a si mesmo: "… A obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfulos. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido, mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde".






"A vida pública não é só política, mas ao mesmo tempo e ainda antes, intelectaul, moral, religiosa; compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de gozar e as culturas" 

"Surpreender-se, estranhar, é começar a entender. É o esporte e o luxo do intelectual. Por isso sua atitude consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas."


VII "VIDA NOBRE E VIDA VULGAR, OU ESFORÇO E INÉRCIA"


Ortega distingue o homem entre massa e minorias - e por sua vez temos o homem-massa de um lado, e de outro o homem-excelente ou o homem-vulgar; ele diz que o excelente é aquilo que exige muito de si mesmo, e o vulgar é aquele que não exige nada de si, apenas contenta-se em o que é e está encantado consigo mesmo (não se trata de uma relação de superioridade/inferioridade).

"Enquanto no passado viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades, perigos, escassez, limitações de destino, o mundo novo apareceu como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas, sem dúvida, onde não se depende de ninguém." (…) ""Se a impressão tradicional dizia: "viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter de contar com o que nos limita", a voz novíssima grita: "viver e não encontrar limitação alguma; portanto, abandonar-se tranquilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém"
"O homem vulgar nunca havia crido ter "idéias" sobre as coisas. Ele sempre teve suas crenças, tradições, experiências, provérbios, mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobe o que as coisas são ou devem ser" 
"Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre tudo quanto acontece e deve acontecer no Universo. (…) Por isso o uso da audição. Para que ouvir, se já têm dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em que não se intervenha"cego" e "surdo", impondo suas "opiniões ". Mas seria isso uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massa tenham "idéias", quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As "idéias" deste homem-médio não são autenticamente idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que essa tal verdade imponha."
"Perpetualmente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime, e não nos interessa. Em outra era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência, mas é inegável que ela significa a maio homenagem à razão e à justiça. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada."


XIII - "O MAIOR PERIGO, O ESTADO" 


Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado - a massa diz a si mesma: "o Estado sou eu", o que é um perfeito erro. Mas o caso é que o homem-massa crê, com efeito, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto, a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe - que o perturbe em qualquer aspecto: política, idéias, indústria.
"O Estado é uma técnica de ordem pública e de administração - o enorme desnível entre a forca social e a do poder público tronou possível a Revolução, as revoluções (até 1848). Mas com a revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes, e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso, que acabou com as revoluções. Desde 1848, quer dizer, desde que comeca a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. E não certamente porque não houvessem motivos para elas - colocou-se o poder social no poder público! Adeus revoluções para sempre!"