sábado, 21 de maio de 2016

Tudo foi feito pelo Sol

                                                                (Ouça o disco na íntegra)

                                            


1. Deixe Entrar Um Pouco D'água no Quintal
(Sergio Dias / Liminha / Ruy Motta)

2. Pitágoras

(Túlio Mourão)
3. Desanuviar
(Sergio Dias / Liminha)
4. Eu Só Penso Em Te Ajudar
(Sergio Dias / Liminha)
5. Cidadão Terra
(Sergio Dias / Liminha)
6. O Contrário de Nada É Nada
(Sergio Dias / Túlio Mourão)
7. Tudo Foi Feito Pelo Sol
(Sergio Dias)



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Sem Rita e Arnaldo, Os Mutantes deram continuidade a sua fase progressiva, já assumida no disco anterior "OAEOZ" de 1973 (que só foi lançado vinte anos após a gravação). Após conversas entre os integrantes, resolveram chamar a banda agora apenas de Mutantes.

"Tudo Foi Feito Pelo Sol" (1974) foi o sexto álbum da icônica banda brasileira. Contando apenas com o guitarrista Sérgio Dias da formação original, o disco traz um conceito a cerca das teorias filosóficas do Uno, mesclada com referências da contracultura - uma obra prima da lisergia tupiniquim influenciada pelo rock progressivo inglês dos anos 70.

Mesmo sem a presença dos membros originais Arnaldo Baptista e Rita Lee, o álbum foi o mais vendido da carreira dos Mutantes, segundo Sérgio Dias.




Sérgio Dias: guitarras, vocais e cítara.
Túlio Mourão: piano, órgão, MiniMoog e vocais.

Antônio Pedro de Medeiros: baixo e backing vocals.

Rui Motta: bateria, percussão e backing vocals.





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A TEORIA DO UNO E O DEUS SOL


Em várias sociedades humanas, egípcios, gregos ou maias, por exemplo, o homem volta e meia cultivou a idéia de que o Sol seria o grande Deus, ou um Deus entre outros. 

Giordano Bruno em, "De l’infinito universo e mondi" e "De la causa, principio e uno" (ambos livros de 1584), defendeu teorias filosóficas que misturam um Neo-Platonismo místico e panteísmo.

Acreditava que o Universo é infinito, que Deus é a alma universal do mundo e que todas as coisas materiais são manifestações deste princípio infinitoPara Bruno, o homem jamais poderá conhecer Deus, posto que  ele está além da capacidade do pensamento humano. Poderá, quando muito, conhecê-lo por seus vestígios, os quais se mostram no universo, razão pela qual mesmo esse conhecimento é precário, vez que o homem quase nada conhece do universo.

Para Plotino, por exmeplo, a idéia do Uno, é um modo de enxergar o Universo. Tudo é Uno, pois, tudo faz parte de uma única coisa. Há algo do campo metafísico e químico que une toda a existência, seja ela viva ou não. E aquilo que emana vida, e é a origem de toda vida que possa haver no Universo, é a luz que sai de um astro luminoso e se espalha para tudo à sua volta; as estrelas; o Sol. 


Essa relfexão filosófica nos desprenderia a respeito de questões mundanas, transcendendo a nossa própria noção de Ser, de substância e de morte - fazemos parte de algo que vai além de todas as coisas que conhecemos, é infinito e imaterial. É o Uno que gera e conserva todas as coisas ilimitadamente. Nós não conseguimos entender, chegar até a essência do Uno, manifestar ou representar essa idéia, que o cristianismo e tantas outras religiões apropriara como "Deus". 


A idéia de chamar o Sol de Deus é uma subversão, pois o Sol em si é apenas mais uma estrela que faz com que os seres vivos existam. Não há uma lógica em relacionar a palavra "Deus" à uma figura que tem um propósito, que pensa, que julga - a idéia de Deus aqui, é simplesmente aquele que torna possível a vida - uma concentração de energia que emana, seja de maneira química ou metafísica, a luz que possibilita a vida no planeta Terra. O Sol não é Deus, todavia, em nosso planeta, tudo foi feito pelo Sol.

Mas os próprios Sóis possíveis no Universo têm um certo tempo de "existência"; em algum momento, a estrela "morre". É aí que entra a questão do Uno no universo. Mesmo que uma estrela se apague, e com isso, seus sistemas solares percam vida, ainda haverá vida no Universo, pois existem outras estrelas, que emanam luz e possibilitam a vida. E, segundo essa teoria, haveria uma conexão metafísica inevitável entre todas as estrelas e os seres vivos do Universo. 

A própria teoria budista mistura a noção de Deus com a Natureza e introduz o princípio do "caminho do meio" onde é quebrada essa idéia de um Deus julgador, com um propósito, mas que a própria Natureza dos atos seria uma espécie de "julgamento" ou "direcionamento". Essa idéia de Deus então, não existe como uma figura separada, mas estaria presente e emanada em toda forma de vida na Natureza; e essa Natureza na sua essência, não existiria sem o Sol.





INFLUÊNCIAS MUSICAIS

"Antes da gravação do disco ouvimos o "Close to the Edge" na íntegra" DIAS, Sérgio
O disco é uma ode ao Rock Progressivo. Claramente, Sérgio, Túlio, Antônio e Rui, haviam mergulhado de cabeça no universo do Prog.

Yes, Emerson, Lake e Palmer, King Crimson, Pink Floyd são exemplos de bandas britânicas que mais fizeram a cabeça dos músicos brasileiros na época da composição das músicas e que levavam um Progressivo Sinfônico que dialoga com o Space Rock.

Uma curiosidade interessante, é que o disco foi gravado em apenas um único dia. E os músicos haviam se deliciado com o clássico "Close to the Edge" momentos antes de entrarem no estúdio - o dedo do Yes é o mais visível na influência das composições.

A fórmula propõe uma mistura de momentos eufóricos, onde há um certo "caos organizado" sempre banhado de solos de guitarra ou moog acompanhados de um certo groove levado pelo casamento do baixo e da bateria. Esses momentos mais pesados, lisérgicos volta e meia são quebrados nos imergindo em momentos de relaxamento, tanto nos momentos da "cama" quanto nos momentos influenciados pela onda "zen", mais hippie.


                                                      


quinta-feira, 19 de maio de 2016

"A Desobediência Civil" de Thoreau

O gênesis do Anarquismo. De 1849 para a eternidade. (Por Henry David Thoreau)

                          
"[…] Porém, para falar de modo prático e como um cidadão, ao contrário daqueles que chamam a si mesmos de antigovernistas, eu clamo não já por governo nenhum, mas imediatamente por um govrerno melhor. Deixemos que cada homem faça saber que tipo de governo mereceria seu respeito e este já seria um passo na direção de obtê-lo "
"De que modo convém a um homem comportar-se em relação ao atual governo? Respondo que ele não poderá associar-se a tal governo sem desonra. Não posso, por um instante sequer, reconhecer como meu governo uma organização política que é também governo de escravos."
"Toda votação é um tipo de jogo (…) onde se brinca com o certo e o errado sobre questões morais; o comprimisso de votar, desta forma, nunca vai mais longe que as conveniências. Nem mesmo o ato de votar pelo que é certo implica fazer algo pelo que é certo - é apenas uma forma de expressar publicamente o meu anêmico desejo de que o certo venha a prevalecer - uma pessoa sábia não deixará o que é certo nas mãos incertas do acaso e nem esperará que a sua vitória se dê através da força da maioria. Há escassa virtude nas ações de massa dos homens."
"Existem leis injutas; devemos submeter-nos a elas e cumpri-las, ou devemos tentar emendá-las e obedecer elas até à sua reforma, ou devemos transgredi-las imediatamente? (…) Em uma sociedade como a nossa, as pessoas em geral pensam que devem esperar até que tenham convencido a maioria a alterar essas leis. (…) Mas é precisamente o governo o culpado pela circunstância. É o governo que faz tudo ficar pior. Por que o governo não é mais capaz e se antecipa para lutar pela reforma? Por que ele não sabe valorizar a sua sábia minoria? Por que ele não estimula a participação ativa dos cidadãos para que lhe mostrem as suas falhas e para conseguir um desempenho melhor do que eles lhe exigem? "
"O governo em si, que é apenas a maneira escolhida pelo povo para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele."
"[…] todos devem reconhecer o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis em sua tirania e ineficiência." ainda sobre "[…] se a injustiça é parte do inevitável atrito no funcionamento da máquina governamental (…) se ela exigir que você seja o agente de uma injustiça para outros, digo, então, que se transgrida essa lei." (…) Faça de sua vida um contra-atrito que pare a máquina - o que preciso fazer é cuidar para que de modo algum eu participe das misérias que eu condeno"
"[…] o homem rico - e não pretendo aqui estabelecer uma relação invejosa - é sempre um ser vendido à instituição que o enriquece. Falando em termos absolutos, quanto mais dinheiro, menos virtude (isso não vale para o contrário). Pois o dinheiro interpõe-se entre um homem e os seus objetivos e permite que ele os compre - obter algo dessa forma não é grande virtude."
Sobre o exército Thoreau provoca: 
"(…) Então, o que são eles? Homens ou pequenos fortes paióis a servico de algum homem inescrupuloso no poder?". Ainda sobre: "o exército é apenas um braço armado do governo. Estamos todos, desta forma, de conformidade com a ordem e o governo civil, reunidos para homenagear e dar apoio à nossa própria crueldade.". "A grande maioria dos homens serve aos Estados desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos.".


segunda-feira, 16 de maio de 2016

A rebelião das massas (1926)

A obra de José Ortega Y Gasset contrapõe-se ao individualismo. Ortega, de modo provocativo, procura induzir à reflexão crítica acerca. é um homem de constatações. E as defende com argumentos sólidos. Porém, em poucos momentos foi totalmente conclusivo. Ortega deixou abertura para que possamos repensar as idéias que defendeu em seus dias, adaptando-as ao nosso tempo e ao futuro.



Ortega faz uma confissão sobre a influência da filosofia de Kant em sua vida e obra: "Durante uma década vivi no mundo do pensamento Kantiano: eu o respirei com uma atmosfera que foi, ao mesmo tempo minha casa e minha prisão (…) Com grande esforço, consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica"
Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma: "É talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna".
Sobre o poder social e efeitos da violência: "ela mesma (violência) nos parece um sintoma de saída, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizava em Hércules".

Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam um certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando - se para os psicanalistas e filósofos contemporâneos, o século XXI é o século da feminilização - estariam então, os homens se feminilizando?


Sobre seu pensamento, tinha plena noção de que tudo que se escreve é datado, porém datado não quer dizer obsoleto, pelo contrário: "o assunto em que trata é demasiado humano para que pudesse escapar à ação do tempo. Há sobretudo épocas em que a realidade humana, sempre instável, se precipita em velocidade vertiginosa. Nossa época é dessa classe porque é de decidas e quedas. Muito do que nele se enuncia foi logo um presente e já é um passado."
Ortega tenta a todo custo sair de lugares comuns e ironiza a si mesmo: "… A obra de caridade mais adequada a nosso tempo: não publicar livros supérfulos. Eu fiz tudo que me foi possível em tal sentido, mas me fizeram ver que o organismo das idéias enunciadas nestas páginas não corresponde".






"A vida pública não é só política, mas ao mesmo tempo e ainda antes, intelectaul, moral, religiosa; compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de gozar e as culturas" 

"Surpreender-se, estranhar, é começar a entender. É o esporte e o luxo do intelectual. Por isso sua atitude consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas."


VII "VIDA NOBRE E VIDA VULGAR, OU ESFORÇO E INÉRCIA"


Ortega distingue o homem entre massa e minorias - e por sua vez temos o homem-massa de um lado, e de outro o homem-excelente ou o homem-vulgar; ele diz que o excelente é aquilo que exige muito de si mesmo, e o vulgar é aquele que não exige nada de si, apenas contenta-se em o que é e está encantado consigo mesmo (não se trata de uma relação de superioridade/inferioridade).

"Enquanto no passado viver significava para o homem médio encontrar a sua volta dificuldades, perigos, escassez, limitações de destino, o mundo novo apareceu como um âmbito de possibilidades praticamente ilimitadas, sem dúvida, onde não se depende de ninguém." (…) ""Se a impressão tradicional dizia: "viver é sentir-se limitado e, por isso mesmo, ter de contar com o que nos limita", a voz novíssima grita: "viver e não encontrar limitação alguma; portanto, abandonar-se tranquilamente a si mesmo. Praticamente nada é impossível, nada é perigoso e, em princípio, ninguém é superior a ninguém"
"O homem vulgar nunca havia crido ter "idéias" sobre as coisas. Ele sempre teve suas crenças, tradições, experiências, provérbios, mas não se imaginava de posse de opiniões teóricas sobe o que as coisas são ou devem ser" 
"Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as "idéias" mais taxativas sobre tudo quanto acontece e deve acontecer no Universo. (…) Por isso o uso da audição. Para que ouvir, se já têm dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão de vida pública em que não se intervenha"cego" e "surdo", impondo suas "opiniões ". Mas seria isso uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massa tenham "idéias", quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As "idéias" deste homem-médio não são autenticamente idéias, nem sua posse é cultura. A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter idéias necessita antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras do jogo que essa tal verdade imponha."
"Perpetualmente o homem tem recorrido à violência: às vezes este recurso era simplesmente um crime, e não nos interessa. Em outra era a violência o meio a que recorria a quem havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que cria ter. Será muito lamentável que a condição humana leve volta e meia a esta forma de violência, mas é inegável que ela significa a maio homenagem à razão e à justiça. Tal violência não é outra coisa senão a razão exasperada."


XIII - "O MAIOR PERIGO, O ESTADO" 


Este é o maior perigo que hoje ameaça a civilização: a estatificação da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado - a massa diz a si mesma: "o Estado sou eu", o que é um perfeito erro. Mas o caso é que o homem-massa crê, com efeito, que ele é o Estado, e tenderá cada vez mais a fazê-lo funcionar a qualquer pretexto, a esmagar com ele toda minoria criadora que o perturbe - que o perturbe em qualquer aspecto: política, idéias, indústria.
"O Estado é uma técnica de ordem pública e de administração - o enorme desnível entre a forca social e a do poder público tronou possível a Revolução, as revoluções (até 1848). Mas com a revolução apossou-se do Poder público a burguesia e aplicou ao Estado suas inegáveis virtudes, e em pouco mais de uma geração criou um Estado poderoso, que acabou com as revoluções. Desde 1848, quer dizer, desde que comeca a segunda geração de governos burgueses não há na Europa verdadeiras revoluções. E não certamente porque não houvessem motivos para elas - colocou-se o poder social no poder público! Adeus revoluções para sempre!"

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Grupo Teatro Escambray




"Foi em 1968 que eles chegaram." Conta Ignácio no capítulo "Espectador passa a ser ator: O teatro atual" , relatando suas experiências e reflexões de uma viagem a Cuba em 1978, feita com um grupo de amigos (entre eles Chico Buarque) - e sobre o GTE - Grupo Teatral Escambray, movimento que proporcionou uma verdadeira revolução cultural e teatral sessentista no interior de Cuba.





A idéia do conjunto era clara: criação coletiva para uma comunicação coletiva. Usar o povo como fonte, tendo em mente os interesses e o desenvolvimento do povo. E fazer com que o povo fosse o criador do seu próprio teatro. Corrieri: "O teatro devia ser um fator vivo, instrumento de discussão e confrontação coletiva dos problemas do público ao qual ele se dirige." Era preciso convivência com o homem  da região, sem a qual é impossível a percepção direta e vivenciada dos conflitos sociais que o conformam. "A necessidade de abordar seriamente a problemática desde lugar nos obrigou a estudar matérias que não estão nos currículos normais de teatro: elementos de sociologia, psicologia, tecnicas de investigação e pesquisa" "[...] Por isso, nossa primeira tarefa foi o conhecimento da zona onde íamos trabalhar, dos problemas de seus habitantes, seu presente, passado."





Sergio Corrieri(diretor do GTE) explica que tudo nasceu de uma insatisfação. Da descoberta feita de que o teatro estava sendo uma arte inútil, não participante: "Os que iniciariam esta experiência não saíram de uma só companhia. Ao contrário, vinham de diversas empresas profissionais que atuavam em Havana. O que nos motivou a ir para Escambray foi o descontentamento com o teatro, do modo como era praticado. Primeiro, o público, era bastante reduzido. O peso e a influência do teatro na vida nacional eram ínfimos. Os dispositivos teatrais continuavam encravados nos lugares tradicionais, os bairros aristocráticos da capital. Acima de tudo, no entanto, sentíamos que o teatro não cooperava com as transformações que estavam ocorrendo em Cuba. Tínhamos mudanças imensas nos planos político, econômico e social.  o repertório era pálido, magro desfigurado. Descobríamos uma contradição entre nossa atitude como cidadãos e as responsabilidades e compromissos que sentíamos como homens da Revolução. Parecia que a nossa profissão não estava à mesma altura dos outros campos de atividade. Víamos a enorme massa de cubanos que não tinha oportunidade de assistir o teatro. E estes cubanos, eles sim, eram os verdadeiros protagonistas da Revolução. Eles a tinham feito. Eles a consolidavam. Eles, principalmente, sofriam os efeitos dessa reforma, sentiam na pele os conflitos que comporta um processo revolucionário. A nossa ambição era que o teatro desempenhasse dentro desta nova sociedade um papel ativo. No começo pensávamos numa ruptura com a maneira convencional de fazer teatro. Depois, verificamos que era uma ruptura e uma continuidade. Não nascemos com o Grupo Escambray, nem nos improvisamos de repente. Arrancamos a partir do que éramos, do que tínhamos aprendido em teatro. As armas eram aquelas que adquirimos na forma tradicional. Armas que não nos prejudicaram. Ao contrário, foram elas que nos permitiram trabalhar, pois faziam a base. Portanto, o Grupo Escambray é uma continuidade enriquecida".

A população do Escambray tinha sofrido, era primitiva, e o governo necessitava desenvolver ali um trabalho intenso. Este "tudo por fazer" excitou aqueles jovens que chegavam de Havana. Eles também podiam contribuir para a Revolução - o contato direto dos atores com a vida, hábitos e costumes do Escambray, transformando a utilização dos valores culturais locais.


Haviam pessoas que questionavam que esse novo teatro preocupava-se apenas com a agitação política. "É uma atitude correta? Ou o teatro deve ser apenas o produtor de alguns momentos de prazer estético?" pergunta Rosa Ilena Boudet em um artigo para revista "Bohemia".


"O teatro não deve ser um fim em si, nem pode ser apenas o agente temporal de um prazer estético" responde Sergio Corrieri, que aparece na foto abaixo. 





Não vamos nos esquecer que estamos abordando um grupo conceitual, em uma época bem específica: o final dos anos 60. A maioria dos participantes do grupo eram jovens dos teatros profissionais de Havana ou da Escola de Belas Artes, dos cursos de arte dramática. O acampamento foi erguido por eles mesmos. Quer dizer: diretores, atores, escritores ergueram, fizeram alicerces, levantaram paredes, fecharam telhados. Com as próprias mãos. O que dá um sentido muito forte à coisa. Existem raízes de suor e uma ligação sanguínea entre gente e construções. Como disse Corrieri "Oito meses de trabalho, vinte mil horas de trabalho físico na construção disto tudo. A pedagogia da Revolução é contundente como um aríete: hoje sabemos o que custa edificar. Agora, podemos apreciar muito mais o esforço dos pedreiros e a dívida que temos para com eles. Foi uma tarefa longa e difícil. Jornadas de dez ou doze horas, compartilhadas por homens e mulheres. Não existe parede, teto, coluna, fossa, jardim onde não intervimos fisicamente. Sabíamos que era uma tarefa insólita. Pela primeira vez em nosso país um grupo de artistas construía seu centro de trabalho, seus alojamentos e instalações."


(O acampamento tem residências, sala de ensaios, biblioteca, arquivo, almoxerifado, refeitório, sala de música) Ele representou a instalação definitiva do grupo na região Escambray.

No início adaptaram-se obras clássicas, farsas medievais, contos, peças de Brecht. A cada espetáculo, seguia-se ampla pesquisa, visitando-se casa por casa e interrogando-se todos que tinham assistido à representação. Comprovava-se assim a eficácia ou não do espetáculo, as reformas que ele deveria sofrer, se o tipo de linguagem estava correto. Ao mesmo tempo, enriquecia-se o texto com fatos novos, extraídos da própria realidade. "Como a temática da obra tinha muito a ver com a vida do espectador, este, ao referir-se a ela, necessariamente falava de si mesmo, de sua origem, aspirações, visão de vida, deixando entrever suas necessidades culturais e o sentido de transformação destas necessidades a cada impulso das mudanças revolucionárias"
Todo o material de investigação era discutido grupalmente. Nestes debates, configuram-se hipóteses que podem via a ser fios centrais das obras. Estas hipóteses sofrem novo período de confrontação e investigação. "A obra", alegam, "é uma hipótese que se confirma ou se modifica em contato com o público"





"Parece-me que o Grupo de Teatro Escambray conseguiu realizar melhor que ninguém o conceito de teatro aberto, uma vez que suas peças só se completam com a participação efetiva do público. Este é que determina finais e conclusões." afirma Loyola Brandão.





É importante saber que o público a quem este teatro se dirige não tinha, anteriormente, nenhum contato com a relidade teatral. Não conhecia portanto nenhuma "regra". Não foi preciso "reformar"a platéia, e sim formá-la. Ela aceitava as regras impostas pelos criadores, transformando-as e enriquecendo-as.


Há uma das peças, "El Juicio", de Gilda Hernández(subdiretora), que só pode ser encenada com a colaboração da assistência. O espetáculo se inicia com a indicação de alguns juízes, escolha que é feita pelos camponeses da platéia. O tema da peça se refere ao caso de Leandro Gonzales, camponês que participou da contra-revolução, foi preso, julgado e posteriormente reabilitado. A primeira parte da peça é formada por uma série de depoimentos(testemunhos) de atores. Em seguida, começa o julgamento de Leandro. Aí os espectadores intervêm, porque eles são os juízes. É o público quem escreve a segunda parte da obra. Os juízes podem, no transcorrer da peça, opinar, interromper, discutir com os atores, reclamar dados que não estão claros no texto. O conceito dessa obra em si, seria fazer com que a população aceite de volta alguns contra-revolucionários reabilitados; tentar ajudar na reintegração da comunidade.




O GTE abriu caminho para uma série de grupos trabalharem na mesma linha, em meios diferentes como La Yaya, Conjunto Dramatico do Oriente e o Teatro de Participação Popular.


LOYOLA BRANDÃO, Ignácio. Cuba de Fidel. São Paulo, 1978